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Colóquio Internacional de Paremiologia, em Tavira

«Grão a grão enche a galinha o papo»

Quando o provérbio é objecto de estudo

7 a 14 de Novembro 2010

«Tal pai, tal filho». «Tal árvore, tal fruto». A primeira expressão certamente reconhece como um provérbio. A segunda é provável que questione o significado. «Tal árvore, tal fruto» poderá tornar-se um provérbio se cair no uso quotidiano de um povo. Para Rui Soares é a possibilidade de aplicar a matemática nos provérbios através de um raciocínio lógico recorrendo à expressão «tal x, tal y». Uma aplicação do saber linguístico e popular a que o professor de matemática recorre. Más há mais.
 
A paixão pelo património oral e cultural que os provérbios representam levou Rui Soares a dedicar-se a este saber mesmo depois da reforma. Em Tavira, terra natal, criou, em 2008, a Associação Internacional de ParemiologiaLigação externa (AIP). Os objectivos desta entidade passam pela investigação, estudo e divulgação de provérbios de todo o mundo.
 
O vice-presidente da AIP, Rui Soares, explica que o ano de existência da associação ainda não permitiu aprofundar todas as áreas e confessa que a recolha de provérbios tem sido feita sobretudo nos colóquios de paremiologia (ciência que estuda os provérbios) organizados anualmente. «A recolha está a ser feita a partir do colóquio, mas temos projectos para ir mesmo ao campo. Isso implica que a associação se consolide para, depois, ter pessoas que possam ir ao terreno», explica.
 
Os cerca de 115 associados com idades compreendidas entre os 20 e os 92 anos revelam a ambição da AIP em juntar «gente nova com a menos nova e também saber científico com saber popular» em torno de um tema que, segundo o nosso interlocutor, nunca vai desaparecer.
 
«Naturalmente a gente jovem está um pouco desviada disto mas isso não significa que os provérbios morrerão. Há uma adaptação». Rui Soares considera que as gerações mais novas estão alienadas dos provérbios porque nunca lhes foi transmitida a história dos adágios.
 
«Quando lhes falamos em provérbios pensam logo: ‘ah! Isso é coisa de velhos’. Mas quando falamos e lhes explicamos os conteúdos acham importante e acabam mesmo por os adaptar», assegura o professor de matemática.
 
Rui Soares dá um exemplo: «O provérbio ‘os últimos são os primeiros’ toda a gente conhece. Agora começa a ouvir ‘os últimos não vão ao pódio’ que é uma adaptação do primeiro provérbio à realidade das competições de hoje».
 
Os provérbios são emanações da cultura e vivências de um país e de uma região, «porque dentro de um país pode haver variações de um mesmo provérbio», comenta. Este saber popular reflecte uma cultura. Nos tempos em que Portugal vivia de costas voltadas para a vizinha Espanha, surgiu no saber do povo o provérbio «De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos», exemplifica Rui Soares.
 
O responsável da AIP diz com entusiasmado: «Se este país continuar a apostar nas energias renováveis e com preocupações ambientais, não será de estranhar que daqui a alguns anos haja provérbios ligados a essa cultura ambiental».
 
A AIP tem desenvolvido actividade junto das escolas para promover o saber em torno dos provérbios. O ponto alto da recolha de informação e divulgação é o Colóquio Internacional de Paremiologia. Em Tavira, reúnem-se todos os anos centenas de especialistas e curiosos em torno deste património oral. A edição de 2010 terá lugar entre 7 e 14 de Novembro naquela cidade algarvia.
 

(texto de Sara Pelicano, http://www.cafeportugal.net/pages/iniciativa_artigo.aspx?id=1507Ligação externa)