Artigos científicos

Jornal Açoriano Oriental

Alunos, alunos...

Carlos Nogueira

Março 2010

Chamo-me Daniel Silva e ando no 9.º ano. Já reprovei quatro vezes, uma no 6.º, outra no 7.º e duas no 8.º. E só não fiquei outra vez no 8.º porque o Presidente do Conselho Directivo, um tal de Dr. Lobo, não permitiu que o Conselho de Turma nem o Conselho Pedagógico me reprovassem. Ele agora parece que já saiu da Escola. O ano está a começar e eu ainda não lhe pus a vista em cima mas já me disseram que não o veremos mais por perto.
 
Ouve um concurso para Director e lá conseguiram pôr o homem na rua. Eu gostava dele, gostava de o ver falar com quatro pedras na mão para os professores, gostava quando ele me dava sermões. Eu sabia que ele queria que eu não ficasse para trás. "Uma terceira retenção? Nem penses nisso, Paula” - disse ele, bem alto, à directora de turma, no final do ano passado. Ela respondeu-lhe, visivelmente cansada daquilo: “Já sabemos que só trabalhas para os números. Eu e os meus colegas só queríamos dar as nossas aulas. Mas este menino não deixa, não aprende nada, quase não faz fichas de avaliação e ainda o queres premiar".
 
Sou famoso na Escola. Todos sabem quem sou, sabem o meu nome, e me ad- miram ou temem. Sou assim admirado de duas maneiras: por aqueles que eu escolho para fazerem parte do meu grupo de amigos ou conhecidos, e por aqueles que eu sei que não gostam de mim. Acho até que prefiro esta última sensação. Enche-me de adrenalina, de poder. Os professores temem-me. E, apesar disso, em cada aula procuram mudar-me. Falam-me ao coração ou levantam-me a voz. Mas eu não quero nada com eles. Dizem que querem ajudar-me, que com este comportamento não vou a lado nenhum, que só me prejudico e prejudico os colegas, que estão cansados. Que me importa a mim isso. Quero é viver a vida, curtir cada momento como se fosse o último, ser conhecido. Os meus pais sustentam-me e hão-de sustentar-me durante muito tempo. Tenho amigos com trinta e tal anos que ainda vivem com os pais. Trabalham alguns meses e estão outro tanto em casa e no café. Bendito subsídio de desemprego e rendimento mínimo garantido. E depois posso até estudar à noite. Agora parece que é fácil. Meia dúzia de meses e lá saímos com o 9.º e com o 12.º.
 
Tenho uma bela vida à minha frente. Este ano volto a ser o número um da Escola. E até pode ser que passe para o 10.º. Queriam pôr-me num Curso de Educação e Formação ou num Tecnológico ou Profissional, ou lá como é que se diz, mas eu não quero ser empregado de mesa, nem cabelereiro, nem técnico de informática, nem nada. Sei lá o que quero ser. O que sei é que tenho um ano pela frente.
 
P.S.: Escrevi isto a conselho do meu professor de Português, que é de todos os professores o mais fixe. Ele corrigiu o texto mas não cortou nem acrescentou nada. E prometeu publicá-lo no jornal da Escola. Só mudou a ordem de algumas palavras, pôs muitas vírgulas e pontos finais. Ele sempre me incentivou a escrever e quis ler as letras que escrevo para as músicas que canto na minha cabeça. Letras que ele dizia serem poemas à Boss AC ou ainda melhores, por estarem carregadas de angústia verdadeira e de raiva contra tudo e contra todos. O meu stôr chama a isto “crónica” e diz que está muito bem. Não sei se ele fala a sério ou se quer gozar comigo. Mas, “crónica”, “carta”, “página de diário” ou “artigo de opinião”, isto vai é ser visto na Internet, a correr mundo.