Artigos científicos

O que realizamos

(pontos de partida; algumas perspectivas teóricas e metodologias)

Paula Morgado Sande

Outubro 2007

O edifício teórico que sustenta o IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Universidade Nova de Lisboa - é, por vocação, eminentemente multidisciplinar. O seu campo de estudos, a que podemos chamar literatura tradicional/popular de transmissão oral, etnoliteratura ou, cobrindo uma área mais vasta de investigação, património dos textos orais e das tradições populares, inclui fundacionalmente um trabalho de recolha e de investigação de textos, de práticas e de objectos que permitem a compreensão de visões do mundo. Recolhendo e lendo os textos produzidos, preservados e estimados no interior da comunidade afectiva e cultural - uma comunidade animada pela memória e que, por amor de si própria, os conserva e transmite como legado às novas gerações - o investigador pesquisa, apreende e esclarece modos de relação do humano (o ser individual e o colectivo; pessoas, grupos sociais e comunidades) com o meio físico e a realidade social e cultural entendida como lugar de partilha de crenças, de experiências e de valores. Ou seja, o investigador intenta perceber e descrever os modos como os indivíduos e os grupos sociais percepcionam o mundo e habitam os lugares e de que formas traduzem, através do praticar - falar, contar, recontar, dançar, ritualizar, representar… - essas visões e essas experiências do mundo.

O investigador persegue modos de ser e de estar; de olhar, de entender e de habitar os espaços físicos e sociais; de questionar e de experimentar o real e a realidade; finalmente, modos de traduzir o resultado dessas experiências enraizadas no concreto. Ou ainda, dizendo de outra forma: modos de incorporar e de re-criar, de apreender, de intuir e de racionalizar; finalmente, de praticar. De novo: modos de ser, de estar e de conhecer nos tempos e nos lugares do habitar quotidiano. Esta constitui a vasta e densa matéria de investigação do IELT: a pesquisa de experiências de natureza física, psíquica, ontológica e antropológica próprias de um modelo de sociedade tradicional, traduzidas através da palavra (em contos, lendas, ditados, rezas, quadras…), de objectos (artesanato), de gestos e práticas rituais (na praça, na igreja, no trabalho…) ou ainda através das artes performativas. É através desta multiplicidade de textos e de práticas que o homem, os grupos e as comunidades vivem, registam, traduzem e dramatizam s suas experiências éticas e culturais. E é precisamente a captação destas experiências vividas, ditas e ritualizadas no interior das sociedades orais/tradicionais/populares que anima o projecto do IELT.

Este trabalho de investigação, compreensivelmente de natureza e vocação multidisciplinares, sustenta-se num conjunto fundamental de noções e de conceitos e num corpo de ideias e de convicções de ordem ontológica, antropológica e também ideológica de assinalável complexidade. Os grandes pilares do projecto são, de uma forma essencial, as noções de comunidade afectiva, tradição, memória, história, identidade cultural e património (material e imaterial). O investigador parte para o seu trabalho com a aguda consciência do extraordinário espírito de complexidade que atinge estes conceitos, ideias e noções teóricas, aceitando que são saudavelmente instáveis, dotadas de um dinamismo que as afasta de uma ideia de estabilidade, de coesão e até de cristalização que o leigo costuma associar a estes conceitos. Deve evitar algumas noções, carregadas de um peso ideológico que o pode impedir de ver e de avaliar com clareza o material antropológico ou etno-sociológico que estuda: por exemplo as noções convencionais, muito idealizadas, não raro pervertidas e perversas, e cada vez mais inquietantes nesta era de manifestação de nacionalismos narcísicos e desequilibrados, de «nação» ou «identidade nacional».

Nada, no campo de trabalhos do investigador em etnoliteratura, aponta para essas ideias de estabilidade e de cristalização. O centro dos estudos do IELT não é de todo ocupado por uma ideia estagnada de cultura-reduto pré-constituída. O repertório de saberes, de práticas, de usos, de costumes, de valores e de textos artísticos e utilitários que o investigador recolhe e estuda apontam para a configuração de uma identidade cultural e “nacional”, e trata-se sem dúvida de um corpo relativamente estabilizado no interior de um modelo de sociedade que os produziu e estimou, guardando-os na memória e transmitindo-os a outras gerações. Contudo os textos da tradição apontam para uma rede não estanque nem perfeitamente estabilizada de sentidos, que se vão verdadeiramente constituindo e reconstituindo, confirmando ou reconfigurando, à medida que vão atravessando os tempos, de geração em geração, transmitidos de memória afectiva a memória afectiva. O núcleo central e comum das tradições estimadas e partilhadas no interior de um grupo como corpo de valores e de saberes comuns não pode ser radicalmente instável e mutante, ou inviabilizar-se-ia a sua capacidade de funcionar como elo de ligação identitária dos indivíduos à comunidade afectiva e cultural animada pela memória e pelo sentido da história. Mas está longe de ser um corpo fixo e imóvel de textos dotados de um sentido. Além disso, esse corpus está realmente só muito remotamente longe de poder ser lido como traço radicalmente original e absolutamente distintivo de uma comunidade cultural (local ou nacional). Esses textos - o que eles dizem, o que eles sabem, o que eles traduzem - participam do seu imaginário estético, ético e cultural, contribuem decisivamente para a definição da sua personalidade ontológica e psíquica, mas têm também muito de construído e de imaginado. Esse é um dos trabalhos do investigador: destrinçar o que é verdadeiramente tradicional, genuíno, por assim dizer, e o que é de invenção mais recente, e não raro marcado pela ideologia e determinado pelas vicissitudes da história política dos povos. O investigador desfaz assim o mito da absoluta autenticidade das tradições, ou do que é tido, por vezes impropriamente, como tradição genuína de uma comunidade.

Para além disso, se esse corpo de saberes e de textos ajuda a determinar a configuração ontológica e a experiência antropológica de uma determinada comunidade cultural dotada de memória histórica, com muito de seu, com uma personalidade ética e cultural muito própria e um percurso histórico (uma memória do passado e uma consciência de si e do seu trajecto ao longo da História) que só a essa comunidade pertence - possuindo portanto um conjunto de traços distintivos que a tornam única, singular, no universo de todas as comunidades humanas - importa não se esquecer que, para além de cada comunidade ter muito de construído, imaginado e até inventado, partilha com outras comunidades muitos dos seus saberes, crenças, valores e experiências históricas e antropológicas. Nenhuma comunidade cultural é radicalmente original no trabalho de produção de visões do mundo e de tradução das suas experiências através das artes, de objectos, de ditos, de rituais. Porque nenhuma comunidade cultural existe isolada da totalidade das outras comunidades. O investigador deve privilegiar uma relação dialogante da identidade cultural que estuda com outras identidades culturais, com outras constelações de valores, com outras redes de afectos, com outras memórias e experiências, com outros corpos de textos e colecções de objectos. Esse é um importantíssimo trabalho de natureza comparativista que vem sendo desenvolvido no IELT, desfazendo-se assim um outro mito: o da radical originalidade cultural e artística das comunidades nacionais. O leigo tende a ter uma visão algo romântica e um pouco ingénua da tradição e da cultura popular, olhando narcisicamente as suas manifestações acreditando que oferecem visões muito próprias do mundo e formas de expressão artística absolutamente originais e distintivas da sua comunidade, o que não é, ou melhor dizendo, nem sempre é verdade.

O comparativismo constitui, por conseguinte, uma outra vocação natural do IELT, cujo corpo de trabalhos publicados é muito marcado por dois tipos de vigor teórico dirigidos para a desconstrução dos dois mitos activos mas falsos que se apontaram. O investigador interessa-se pela recolha e pelo estudo das tradições (textos, saberes, crenças, costumes, rituais) que se julgavam perdidas ou esquecidas ou que, pelo contrário, permanecem activas e operativas no interior de uma comunidade nacional ou de comunidades locais no presente, tentando perceber duas coisas: como foram permanecendo inalteradas ou foram mudando ao longo dos tempos (e porquê), e de que maneira são, ou não são, próprias e autênticas no interior da comunidade, por comparação com o corpo de tradições de outras comunidades. O investigador desfaz assim algumas ideias culturais mais ou menos instaladas mas erradas, e que apontam para a ideia falsa (e por vezes falsificada) de que o corpo de textos, de objectos e de práticas que compõem o património material e imaterial de uma comunidade nacional é puro, genuíno, original e intemporal. Há portanto que estudar o conjunto de influências externas à comunidade, naturalmente aberta e permeável ao acolhimento de contribuições várias de outras culturas; há também que acompanhar a dinâmica existencial da comunidade cultural em estudo, no sentido da compreensão da sua natureza intrinsecamente instável, mutante, evolutiva, o que ajuda o investigador, entre outras coisas, a perceber e a clarificar de que forma uma cultura, de alguma maneira, se escolhe a si própria, ou se vai escolhendo, e se imagina, ou se vai imaginando e recriando, preservando mas também esquecendo, estimando e perpetuando mas também inventando novas tradições.


Pelo que se vem afirmando, compreende-se que no IELT se parte de uma atitude de rejeição da ideia ingénua e muito romantizada de que o património e a tradição sejam territórios de manifestação artística e cultural estáveis, genuínos e radicalmente originais, cristalizados na sua pureza e a salvo da ideologia (ou seja, da invenção, da falsificação e da manipulação). O património e a tradição são hoje, no espaço social rural como urbano, fora da academia, muito mais do que meros objectos de curiosidade folclórica, de valor museológico, algo que se recolha, catalogue, guarde e estime apenas por constituir testemunho e testamento de um modelo longínquo de sociedade tradicional, e que configuram um aspecto importante da personalidade cultural da comunidade. Não se vê mais o património e a tradição como objectos de estudo da academia que, recolhidos e preservados através de vários suportes (escrito e audiovisual) nos restituiriam, com algum saudosismo, uma imagem lisa e genuína de modos perdidos de experiência do real e da vida. Tem-se assistido, nos últimos anos, a um despertar verdadeiramente interessado dos públicos para estas manifestações, que não falam apenas de visões distantes do mundo, o que os tornaria susceptíveis de despertar essa redutora e simplista curiosidade folclórica. Hoje olham-se estes textos como lugares ainda susceptíveis de produção de sentido(s) para a vida, e não estão de facto ultrapassados. Nem são mais vistos como coisa «modesta». A palavra «folclore» vem conquistando uma justa respeitabilidade, e o seu repertório vem suscitando vivo e assinalável interesse, em particular nos espaços urbanos.

No IELT partiu-se desde sempre com uma forte convicção, que aliás na pós-modernidade se vem afirmando em vários sectores das artes e da cultura: de que não faz sentido aceitar-se o pressuposto injusto (e em rigor só justificado e praticado pela Academia) de que existe um centro cultural forte - a cultura oficial, dominante, institucionalizada, consagrada ou “alta” cultura -, centro de excelência a partir do qual, ou na margem do qual, se definem e inferiorizam outras manifestações artísticas e culturais - a cultura popular, a cultura marginal, a cultura de massas, enfim, a “baixa” cultura. No IELT pratica-se uma noção des-centrada e não hierarquizada - verdadeiramente justa e generosa - de cultura. Não se reconhece a existência de um centro modelar, aristocrático e superior, de cultura, um cânone rígido a partir do qual se estabeleceriam e adoptariam bitolas de valores artísticos. No IELT promove-se uma cultura artística e cultural palimpséstica, onde não há grandes que se meçam com os pequenos (cf. www.grandepequeno.com). Promove-se com frequência o diálogo intertextual entre textos da tradição oral e textos de autores consagrados, consagráveis ou daqueles que nunca virão a ser canonizados (isso não tem qualquer importância). No campo de estudos do IELT o que vale é o confronto de vozes e de visões da tradição com vozes autorais individuais que, de forma assumida e expressa, ou não, entram em diálogo com textos da tradição: para os citar, recriar, desfigurar, negar… (sempre, de alguma maneira, para os fazer renascer, como José Saramago faz, por exemplo, com os provérbios nos seus romances…).

A arte e a cultura são entendidas, nesta imensa área de estudos sobre a tradição, como um perpétuo acontecer: a produção, a descoberta, a recriação, o confronto de vozes e de visões sobre o mundo. Um perpétuo acontecer: um perpétuo trabalho de criação e de expressão dos indivíduos e das comunidades, continuado ao longo dos tempos, que é da ordem do material e do imaterial, e nos vai falando sobre a realidade que somos. A realidade do que somos: o que nos define como humanos que pensam e que sentem, que ocupam lugares num determinado ponto do tempo. Mudam-se os tempos e os lugares, muda o espírito do tempo e do lugar, mudam com ele as experiências humanas do real e da realidade. Mas não de forma tão radical que mudem com elas o sentido fundamental (ou melhor, os sentidos) sobre a vida que estes textos revelam.

Recolher, ler e escutar, clarificar os textos do património da tradição oral, é um trabalho que se vem laboriosamente conduzindo no IELT, assinalado pelo desejo de participar numa cultura que se escolhe, que se sabe escolher como ética: uma cultura que escolhe lembrar e estimar os seus textos, os seus saberes, as suas memórias, as suas experiências. Não existe mais elevado conceito de cultura.