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Cultura - «Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental»

Sara Pelicano

Março 2013

A iniciativa do Instituto de Estudos de Literatura Tradicional visa a criação de uma base de dados nacional onde será possível escolher uma região do país e conhecer a paisagem local através das obras e dos escritores que a descreveram. Uma forma de divulgar, mas também de preservar as paisagens portuguesas.
 
Muitos são os autores, desde o século XIX até ao presente, que descreveram e descrevem as paisagens de Portugal. Uns retratam o que os envolve com o seu próprio olhar, outros recorrem ao olhar das personagens. Para a posteridade ficam descrições minuciosas, umas mais que outras, do território nacional.
 
O Instituto de Estudos de Literatura Tradicional (IELT) da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas Universidade Nova de Lisboa (FCSH/UNL) está a estudar autores portugueses e as suas descrições da paisagem do território nacional com o intuito de criar um «Atlas das Paisagens Literárias de Portugal ContinentalLigação externa».
 
«O período que estamos a estudar, desde o romantismo até à actualidade é muito prolífico em obras que retratam a paisagem. Temos obras, que podíamos referenciar como paisagistas, em que a paisagem é uma personagem. Ela é de tal forma importante que os seus autores lhe conferem a relevância quase de uma personagem. São exaustivos nos detalhes descritivos, dão-lhe razão no próprio enredo. De resto, a paisagem está sempre mais ou menos presente, com mais ou menos detalhe, em todas as obras», explica Ana Isabel Queiroz, coordenadora do projecto.
 
O levantamento envolve uma equipa multidisciplinar, com profissionais de áreas como biologia, literatura, filosofia, geografia, artes e outras. Um trabalho que procura valorizar quer as obras literárias, quer as paisagens nelas representadas.
 
De acordo com os promotores deste original Atlas do território, trata-se de um contributo, através de uma abordagem diferente, ao lazer e turismo. «Contribuir para o conhecimento do património natural e cultural, elementos-chave das identidades locais e regionais», ao mesmo tempo que concorre para a literacia.
 

Na prática, a informação reunida vai sendo distribuída num mapa de Portugal cuja unidade mínima de referenciação geográfica é a Nomenclatura de Unidades Territoriais, nível III (NUT III).
 
Ana Isabel Queiroz adianta que está prevista «a construção de mapas que emanam da forma como registamos os excertos literários que têm as paisagens. Registamos numa base de dados as características de conteúdos dos excertos que verificamos nas obras. Por exemplo, ao ler um texto podemos referenciar as espécies de fauna e flora que aparecem. Será possível fazermos um mapa da distribuição literária do lobo em Portugal, ou um mapa da distribuição literária do sobreiro em Portugal».
 
Outro tipo de mapa é dedicado a uma localidade, como já foi feito para Lisboa, onde são marcados todos os lugares mencionados num corpus. Neste caso são 35 narrativas de ficção desde o século XIX até à actualidade que estudámos em detalhe. Mapas que também incidem sobre autores como Aquilino Ribeiro ou Eça de Queirós.
 
Esta base de dados sobre a paisagem de Portugal continental está a ser desenvolvida por alunos de mestrado em Tecnologias de Informática da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa.
 
Enquanto este trabalho não está concluído, a informação já reunida vai sendo partilhada em publicações científicas internacionais, em livros em formato digital, mas também em conferências e colóquios onde o projecto é apresentado. A iniciativa envolve quem se interesse por este tema promovendo sessões, como explica Ana Isabel Queiroz, de «uma comunidade de leitores de paisagens literárias de Lisboa».
 
Os encontros acontecem uma vez por mês, reunindo amigos dos livros, da leitura, de Lisboa, que partilham a sua experiência de ler uma determinada obra. Sempre que possível, o autor dos livros também está presente, quando não é possível «tentamos ter connosco um estudioso dessa obra para comentar».
 
O Atlas vai também permitir acompanhar a evolução da natureza ao longo dos séculos. «Se considerarmos que em cada momento os escritores reflectiram o real, o que existia realmente podemos aprender o que lá estava e sobre a maneira como as pessoas daquela época sentiam a paisagem, a experienciavam, que valores e ideias emanavam desse ambiente à sua volta. Essa é a possibilidade que temos de estudar no tempo as alterações, as modificações que se verificavam quer na paisagem, quer na forma de a encarar», pormenoriza a coordenadora do projecto.
 
Uma das metas deste trabalho é cooperar na implementação da Convenção Europeia da Paisagem «o único diploma internacional, transporto para o direito nacional, que especificamente protege a paisagem e lhe atribui estatuto de conservação. A convenção tem como objectivo, para além de conhecer melhor as paisagens e as caracterizar, definir aquilo que se chama objectivos de qualidade paisagística, isto é as características que cada paisagem tem em determinado local. Essas características são objectivas do que lá está mas também subjectivas da forma como as pessoas vivem a paisagem e a sentem. A paisagem para nos é isso, o conjunto dos elementos naturais e culturais tal como é percepcionada pelas pessoas», avança a mesma responsável.
 
A amplitude de trabalho é grande e o prazo para o concluir indefinido porque todo o projecto é feito com colaboradores voluntários e sem financiamento. O projecto «Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental» candidatou-se a programas da Fundação para a Ciência e Tecnologia mas não foi financiado.
 
«Tínhamos uma série de actividades afectas a um orçamento que não tivemos. Continuamos a trabalhar de forma colaborativa e voluntária. O projecto não tem praticamente dinheiro, pelo que também não tem uma data para acabar», lamenta Ana Isabel Queiroz.