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Gonçalo M. Tavares: Abismo e Queda

José Mário Silva

Setembro 2013

Opus 12 de Gonçalo M. Tavares, Animalescos pertence ao ciclo das «Canções» - de que também fazem parte Água, Cão, Cavalo, Cabeça (2006) e Canções Mexicanas (2011) -, uma das secções mais inclassificáveis e experimentais da sua já vasta obra. Encimados por uma lista de palavras que servem de mote ou resumo, estes textos curtos são ásperos, vertiginosos, assimétricos, dissonantes e muito negros, de uma «negrura compacta, sem falhas». Pode mesmo dizer-se que funcionam à semelhança dos «objectos esquizofrénicos» referidos em certa passagem, entidades que no mesmo instante fazem e destroem, «como se fossem um corredor muito rápido e humano a aplicar a sua velocidade a rodear uma circunferência minúscula, não interessa seres tão rápido se sais da linha que se traçou no chão e sair da linha é cair, como as crianças sabem, se marcas um traço no chão o que está fora do traço é abismo e queda, e se cais estás morto».
 
A ideia da queda, tanto metafórica como literal, atravessa o livro. Os corpos e as ideias caem, puxados para baixo pela mais poderosa das forças: «A bondade desce do céu, como se entre o solo sujo e a limpeza das alturas existissem umas belas escadas; enquanto a maldade cai do céu, como a bomba e a pedra.» A maldade é sempre mais rápida e devastadora. Por isso, quando algo parecido com o bem chega «cá abaixo», já encontra «o caos, a desordem e a violência instalados». Um cenário sombrio onde sopra o temível vento Bora, «o vento que faz as cabeças loucas» e que interfere com tudo. A loucura entra nos homens e nas coisas, desequilibra o mundo e os textos refletem esse desequilíbrio.
 
Quando «uma cidade pode ser mordida como se fosse um organismo», espalha-se a doença e a paranoia, uma espécie de ruína civilizacional. A Humanidade regride a um estado primitivo. Não sabemos o porquê deste apocalipse, deste retrocesso, mas a verdade é que os homens abdicam da racionalidade e estudam para animais. Estamos próximos do grau zero da sobrevivência: «uma guerra, uma luta, tens dentes, eu tenho dentes, estamos prontos». Tudo é suscetível de neurose: os humanos e a madeira. Tudo sucumbe e apodrece. No meio da rua, um homem é linchado «como se estivessem a reparar uma falha no espaço, aquele homem é uma falha no espaço, não uma fenda, mas um sobressalto, um excesso, é preciso pôr tudo ao mesmo nível».
 
Tavares retoma algumas das suas obsessões. A lenta autópsia dos mecanismos da crueldade: tremendas as cenas em que cães são obrigados a morrer à fome ou entregues à predação dos urubus; filhos enterram o pai ainda vivo; ou médicos tiranizam os seus pacientes. Ou a imagem de uma natureza que é palco permanente de um jogo de forças (um agricultor dispara a sua espingarda contra a terra lavrada, por acreditar que a «velocidade violenta da bala que entra no solo transmite uma energia que mais nenhum gesto manso pode alguma vez conseguir e a terra [...] ganha uma energia que vai passar aos alimentos»). São temas recorrentes, mas tratados de forma particularmente crua, agreste, por vezes quase insuportável.
 
A verdade é que ninguém escreve, hoje, com esta brutalidade, esta desmesura, este desassombro. O que Tavares nos dá é a «quarta pessoa do singular» a que se refere a epígrafe de Deleuze. Uma voz que talvez já esteja para lá do que pode ser dito, mas ainda assim diz.