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Jesse Prinz: "Somos o grupo social a que pertencemos"

Clara Soares

Outubro 2014

O cabelo pintado de azul, a roupa informal e os acessórios invulgares são o primeiro cartão de visita deste professor universitário e cientista, com mais de uma centena de artigos publicados e vários livros com créditos firmados a nível internacional. A aparência inconvencional, também no gesto e na palavra, não tornam óbvio o facto de ele ter 44 anos, ser casado e constituir um modelo ímpar para os seus estudantes de Filosofia, que desafia a testarem cientificamente a validade dos seus conceitos, sem se ficarem pelas "ideias feitas", acerca da perceção, da emoção e da cultura, condicionando o pensamento e valores.

Autor de obras como Além da Natureza Humana, Mobilando a Mente, ou Reações Viscerais e O Cérebro Consciente (não disponíveis em Portugal), Jesse Prinz não parece apenas um artista - ele é um artista. Antes de optar pela "filosofia da psicologia", foi aluno de Artes e guarda, ainda hoje, o gosto pelo traço. Os desenhos estão presentes na decoração do espaço onde trabalha, bem como no seu site, Subcortex, onde abundam cabeças de humanos e de outros animais.

Jesse Prinz estará em Lisboa esta sexta-feira, na segunda edição do colóquio internacional Morality and Emotion (no Instituto de Estudos de Literatura Tradicional, com entrada gratuita). Falámos com ele para descobrir o que o move a participar em acesos debates científicos sobre as grandes questões da vida, como se como se não houvesse amanhã.

Cresceu numa família de artistas, estudou Artes e hoje escreve sobre questões complexas que inflamam o debate na comunidade científica. Como chegou até aqui?
A filosofia é uma expressão criativa da mente, o reflexo da capacidade de distanciamento e uma forma de experienciação da nossa existência. Muita da arte contemporânea é filosófica. A perceção humana foi um dos temas que me chamou a atenção quando era adolescente.

Define-se enquanto neurofilósofo. A neurociência não chega para explicar a mente?
De todas as criaturas do planeta, os humanos são os que apresentam mais diversidade. O problema dos modelos genéticos e biológicos é o universalismo, o foco nas semelhanças, sem atender às especificidades que nos tornam especiais. A ciência é uma ferramenta valiosa para teorizar o funcionamento mental, mas é enviesada pelos nossos valores e diferenças culturais, nas mil e uma formas como pensamos, cozinhamos ou amamos.

É um empirista?
Sim, defendo que a experiência é o alicerce do conhecimento e que as decisões morais variam em função da história das suas interações com o mundo. Pensamos que as nossas decisões são racionais, mas elas têm uma base percetiva, sensorial e histórica.

Qual o tópico que aborda mais nas aulas? O que é que os seus alunos lhe perguntam mais?
Um pouco de tudo: psicologia da arte, psicologia da moral, a natureza da consciência humana. Atrai-me a ideia de integrar áreas de conhecimento e procuro convencer os alunos de Filosofia a aprenderem alguma coisa de neurociência, de psicologia, de antropologia. Quando apresentam modelos e ideias, pergunto 'como testas isso?'

O que são os Experimentos em Filosofia [grupo de que faz parte e é divulgado na revista Psychology Today]?
Fazemos pesquisa comportamental e estudamos o efeito das emoções na tomada de decisão. Usamos músicas que induzem certos estados de espírito e depois apresentamos aos sujeitos questões que envolvem escolhas éticas. Mentir numa entrevista de emprego para ter o lugar, por exemplo, não os perturbava tanto como depois de terem sido sujeitas a estados de zanga.

À luz da "filosofia da psicologia", como designa a sua área de trabalho, sobre o 'Self'?
Uma das maneiras de explicar isto é olhar para a forma como as pessoas se representam a si mesmas nos media sociais. O perfil revela a orientação sexual, se é monógamo ou tem relações abertas, qual a filiação política, se tem religião ou é ateu. Respondemos tendo em mente o que queremos que os outros pensem de nós. À pergunta 'quem sou eu' respondemos sempre 'nós'. Somos o grupo social a que pertencemos, é o reflexo da nossa natureza tribal.

As questões culturais explicam a sociopatia, por exemplo?
Vamos supor que certas pessoas são mais predispostas para a criminalidade. Tendemos a procurar primeiro uma explicação biológica, que só faz cientificamente sentido se houver homogeneidade cultural, ou seja, ao nível de variáveis como o rendimento, condições sanitárias ou segurança dessa população. Em face de situações de pobreza, humilhação, assimetrias e ambientes perigosos, a biologia é o ultimo lugar para explicar esta conduta.

A relação entre violência e questões de género, muito debatida nos seus textos, existe?
A premissa de que os homens são mais violentos é estatisticamente verdadeira. Porém, o género tem sido mal compreendido na sua relação com a violência. O poder, não a masculinidade, é o preditor real da violência. As pesquisas neste campo sugerem que, em funções diretivas, elas podem ser tão ou mais duras que eles. A ideia de empoderar as mulheres com vista a um mundo mais pacífico não se aplica. É preciso quebrar barreiras ideológicas acerca do que é atributo das mulheres e dos homens, até nas competências.

As diferenças dos hemisférios cerebrais no cérebro masculino e feminino não contam?
Nós não sabemos realmente a relação entre estas diferenças cerebrais e as competências. O cérebro dos homens é maior em tamanho, o das mulheres tem mais neurónios. Tomando uma competência especifica, como a negocial, conclui-se que elas são melhores na tarefa, não pelos hemisférios ou neurónios, mas devido à sua socialização, com menos acesso a privilégios e poder, que as levou a desenvolver essa capacidade. Se der uma formação a homens e mulheres e os avaliar, a diferença entre o antes e o depois será maior do que a obtida entre sexos.

A empatia, tema de eleição na ciência cognitiva, tem lugar na pesquisa sobre valores morais?
Se for usada para tomar decisões a nível mundial, a empatia vai induzir-nos em erro e acabar em favoritismos vários. Somos empáticos com pessoas similares a nós. Os adeptos de um clube ficam felicíssimos quando a equipa ganha, tristes quando ela perde. Chegam a celebrar a derrota do clube rival... É uma lição que temos de aprender.

E qual é a lição?
Não contar com a empatia na hora de investir recursos e apoios, antes basear-se em princípios de justiça. Seria legítimo que os EUA travassem Saddam Hussein, um mau líder responsável pela morte de centenas de pessoas, se os recursos não fossem limitados, se não houvesse milhões de pessoas vitimadas pela fome, sida, malária, tuberculose. Apostar no combate à doença e pobreza global teria um impacto bem melhor: num país com condições de estabilidade mínimas para prosperar, a tolerância para com regimes totalitários cai por terra.

Começámos pela arte e terminamos com ela. Desenha cabeças por provocação ou prazer?
Obrigada por me fazer essa pergunta! Gosto de desenhar enquanto oiço palestras, ajuda-me a concentrar e isso até foi provado numa pesquisa em que estive envolvido. Se se limitar a ouvir, facilmente se distrai ou pode ser levado a pensar demais, a partir do que vai ouvindo. Ao desenhar, a atenção alcança um ponto ótimo: fica-se focado, mas não muito. Faço-o quando viajo: retratos ou imagens do que está a acontecer às cabeças de pessoas (risos), ou que refletem o lugar em que estou, onde me sinto. Acabei de chegar da Austrália e fiz desenhos de koalas e cangurus a saírem de cabeças! Mais do que uma foto, pode ser um interessante postal de visita que capta as impressões de um local.