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Café Portugal

Cultura - Séculos de fábula portuguesa num catálogo online

Ana Clara

Dezembro 2014

Um catálogo informatizado em torno da fábula na literatura portuguesa está disponível online, abarcando o período compreendido desde a Idade Média à época contemporânea. Para Ana Paiva, investigadora da Universidade Nova, ligada ao projecto «A Fábula na Literatura Portuguesa», «a atenção que a fábula tem merecido por parte do ensino em Portugal é muito escassa». Porém, «ela está presente constantemente no discurso do quotidiano, no mundo infantil, no universo popular».

Ana Clara; Fotos - Biblioteca Nacional de Portugal e IELT | segunda-feira, 13 de Outubro de 2014

 

Café Portugal - Quando nasceu o projecto em torno da catalogação da «Fábula na Literatura Portuguesa»?
Ana Paiva Morais -
O projecto «A Fábula na Literatura Portuguesa: Catálogo e História Crítica» teve início em 2010 e foi desenvolvido com financiamento da FCT – Fundação para a Ciência e a Tecnologia durante três anos, tendo terminado em 2013. Inscreveu-se na actividade de investigação do IELT - Instituto de Estudos de Literatura Tradicional da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, e foi desenvolvido por uma equipa que integrou, além dos membros da FCSH, elementos das Universidades de Aveiro, do Algarve e de Salamanca, e dois bolseiros.
 
C.P. - Quais os objectivos deste levantamento?
A.P.M. -
Foram objectivos principais deste projecto, como, de resto, está explícito na sua designação, a constituição do catálogo informatizado da fábula na literatura portuguesa da Idade Média à época contemporânea, apresentado em base de dados, e a elaboração de um conjunto de ensaios que constituiu a primeira versão da «História Crítica da Fábula na Literatura Portuguesa».

C.P. - Pode esmiuçar? O que podemos encontrar no catálogo e nos ensaios?
A.P.M. -
O catálogo da fábula é um projecto em curso, que continua a ser alimentado e aperfeiçoado para além do período em que foi desenvolvido com recurso a financiamento da FCT. Actualmente conta mais de 2500 entradas. A «História Crítica da Fábula na Literatura Portuguesa» integra 12 ensaios que complementam a informação do catálogo da fábula. É seu objectivo dar ao leitor uma ideia do lugar ocupado pela fábula no contexto da literatura nacional e das motivações de ordem poética que motivaram os modos como este género foi cultivado em Portugal ao longo dos séculos, e como, por vezes, mesmo, certas publicações em português surgiram fora do território nacional.
 
C.P. - Que importância tem a fábula na literatura portuguesa numa perspectiva temporal?
A.P.M. -
Contrastando com a situação no resto da Europa, sobretudo se tivermos em mente os casos da França e da Espanha, em Portugal a fábula foi relativamente pouco cultivada durante o período medieval, quer em colecções quer em outras obras que fizeram uso de composições deste género poético. Conhece-se, apenas, uma colecção medieval de fábulas em português, o «Livro de Exopo», e citações ou alusões à fábula encontram-se em raras obras além da «Crónica de D. João I» de Fernão Lopes ou de Gil Vicente. Por regra, a fábula era cultivada como género didáctico e, por vezes, como reforço retórico de um argumento.
 
C.P. - Um panorama que foi, certamente, mudando…
A.P.M. -
Este panorama muda um pouco no século XVI, em grande parte devido à importância que a fábula alcançou em círculos humanistas europeus, cujos ecos, no que à fábula diz respeito, nos chegaram de modo mais ou menos difuso e tardio. A segunda colecção de fábulas que se conhece em língua portuguesa só foi impressa em 1603, em Évora, integrando a vida e as fábulas de Esopo traduzidas por Manuel Mendes da Vidigueira. É um livro com características claramente diferentes dos fabulários medievais, mais marcado por elementos mitológicos, por exemplo, e com algumas referências a fontes humanistas. Esta colecção foi especialmente importante para a circulação das fábulas em Portugal, dado que conheceu diversas reedições e reimpressões que se estenderam até inícios do século XX. As compilações de fábulas tornam-se mais frequentes durante o século XVII e, sobretudo, nas duas centúrias seguintes, situação claramente devedora do surgimento das importantes colecções espanholas de Iriarte (traduzidas, por exemplo, por Romão Creio, 1796) e de Samaniego e, com uma recepção um tanto ou quanto tardia em Portugal, das Fables de La Fontaine. Nos séculos XVII e XVIII, cultivaram as fábulas nas suas obras autores tão diversos quanto Sóror Maria do Céu, D. Francisco Manuel de Melo ou o Padre António Vieira, dando testemunho de quão profícuas se tinham tornado as fábulas no Barroco e de como voltaram a ocupar lugar na sermonística [arte de escrever e pregar sermões], embora timidamente. Na sequência do que tinha sido iniciado em setecentos com as traduções das fábulas de Fedro, p.e. por Manuel de Morais Soares (1785), a tradução de fábulas tornou-se prática corrente, ao ponto de diversos autores portugueses afamados, como Bocage, se terem exercitado neste género tanto a partir da tradução quanto da criação.

C.P. - E já no século XIX?
A.P.M. -
No século XIX a fábula é um género poético, já menos devendo à sua existência retórica e filosófica de outrora. Exemplos disso são o interesse que demonstraram por ela escritores como Filinto Elíseo ou a Marquesa de Alorna, que o cultivaram como género literário. Mas, em boa verdade, recorde-se que as fábulas tinham circulado em Portugal desde a Idade Média, sobretudo, por meio de traduções, ainda que nesses exercícios de transmissão houvesse uma considerável liberdade de intervenção dos tradutores, e por vezes também dos editores, nos textos traduzidos. É uma situação comum no que respeita à fábula em geral, e não é específica do nosso país. Só a partir do século XVII se começam a encontrar fábulas de autor, tendo esta prática uma expressão mais relevante na produção literária de oitocentos. Em todo o caso, o seu pendor didáctico mantém-se praticamente inalterado. Caso significativo, em 1885, o Visconde de Santa Mónica, Henrique O’Neill, perceptor do futuro rei D. Carlos, publica o «Fabulário», dedicado ao seu pupilo, onde se incluem 365 fábulas, o seja, uma fábula por dia, o que parece apontar para um programa de formação do espírito que se cumpriria numa disciplina diária em que a leitura de fábulas ocupava um lugar de relevo.

C.P. - Com o século XX houve alterações significativas na natureza e fins da fábula?
A.P.M. -
A fábula irá seguir vias distintas entre os séculos XIX e o XX: por um lado especializando-se num público infantil, de certo modo, passando a uma menorização e a uma existência à margem da literatura, num isolamento que é profundamente alheio à dimensão de género sapiencial e universal que cunhara este género na Antiguidade. Por outro lado, na poesia, a fábula conhecerá uma rejeição da dimensão narrativa e será sujeita a uma depuração que irá reter apenas o seu fundo poético essencial, o que determinará um retorno à ideia primordial de fabula que a tornava um quase sinónimo da palavra poética, numa espécie de «fabulário ainda por encontrar», como referiu Fernando Pessoa numa das poucas fábulas que criou, «rosa de seda» (1915) [vejam-se exemplos recentes nos poemas de «Aracne» de António Franco Alexandre ou no poema «Medeia» de Sophia de Mello Breyner ou, ainda, no texto «Velha fábula em bossa nova» de Alexandre O’Neill]. Por outro lado, ainda, a ficção narrativa do século irá regressar à fábula, mas usando-a como lente irónica para uma visão crítica do mundo contemporâneo e da escrita («História do Peixe-pato» de Jorge de Sena, «O Porco de Arimanto» de Pires Cabral ou «Antifábula» de Nuno Júdice, p.e.), até chegar ao ponto-limite actual em que os animais da fábula, mais do que ilustrarem comportamentos humanos censuráveis ou louváveis, não se distinguem do próprio homem, cuja natureza animal como que se autonomizou, segundo Cão como nós de Manuel Alegre ou o mais recente Gonçalo M. Tavares, Animalescos, para citar apenas alguns exemplos.
 
A fábula e o Ensino:
C.P. - Na sua opinião como olham os cidadãos para a fábula e para a sua importância?
A.P.M. -
É vulgar dizer-se que todos conhecemos fábulas e que estas pequenas composições pertencem a um património literário vasto. Esta ideia comum deve, no entanto, que ser vista mais de perto. A verdade é que, se muitos de nós, mais ou menos instruídos, conhecemos fábulas, esse conhecimento é geralmente limitado a um universo de textos muitíssimo reduzido: quem não se lembra da fábula «a raposa e o corvo», ou «o lobo e o cordeiro», ou, ainda «a cigarra e a formiga»? Mas, por outro lado, é muito provável que «o leão vencido pelo homem» ou «os dois burros e o mono» não sejam reconhecidos pela maioria, apesar de terem sido cultivadas por um autor tão popular como Bocage e por vários outros. Por outro lado, a utilização política da fábula revela que, apesar deste distanciamento, ela está bem mais presente do que se pode imaginar - no discurso dos políticos vemo-la aflorar de tempos a tempos para confirmar um argumento, chegando a ter um estatuto quase de prova, mostrando a que ponto se confia nesta estratégia da argumentação.

C.P. - Em seu entender a fábula tem sido devidamente divulgada?
A.P.M. -
Não creio que a fábula necessite propriamente de divulgação, pois ela parece impor-se através de meios e canais que nem sempre são perceptíveis ou que nem sempre passam pela publicação. No entanto, esta existência é muito parcial ou truncada: por vezes não se reconhece uma fábula completa, ou apenas se consegue fazer-lhe referência por alusão: é frequente ouvirmos comparações com a raposa para sugerir que alguém é ardiloso, pouco fiável ou mentiroso, ou à lebre para figurar a arrogância e o desprezo pelos mais fracos em aparência, recordando «a lebre e a tartaruga». Mas, no campo da literatura, apesar do respeito que pela fábula continuam a nutrir os escritores, é inegável que a fábula não pertence actualmente ao cânone dos géneros literários. De resto, isto também nos dá pistas para percebermos os modos singulares de manifestação da fábula actualmente na literatura.
 
C.P. - No ensino, em Portugal, a fábula tem o merecido destaque?
A.P.M. -
Julgo que a atenção que a fábula tem merecido por parte do ensino em Portugal é muito escassa e parcial. É verdade que ela encontra um espaço nos primeiros anos de aprendizagem, o que em minha opinião, é legítimo e desejável, desde que tal não se torne exclusivo. A partir daí, a fábula deixa praticamente de existir no ensino. Por outro lado, os estudos sobre a fábula são quase inexistentes em Portugal e, diga-se a verdade, pouco desenvolvidos noutros países quando comparados, por exemplo, com o interesse suscitado pelo romance, o conto ou a poesia de um modo geral. A fábula vive numa situação curiosa em que, por um lado, a crítica a considera quase como um género caducado, mas, por outro lado, os escritores recorrem com muita frequência a este fundo literário. Salvam-se algumas excepções, como, por exemplo, o número da revista Forma Breve dedicado à fábula, que contém estudos relevantes (2003) e o estudo pioneiro de Luciano Pereira, que traça a história da fábula na literatura portuguesa (2007), bem como artigos dispersos de outros estudiosos. No campo da retórica, como instrumento da argumentação, a fábula também carece de um trabalho aprofundado. No entanto, ela está presente constantemente no discurso do quotidiano, no mundo infantil, no universo popular, e é omnipresente no campo artístico e, como já tentei demonstrar, na literatura em todas as épocas. Têm também surgido alguns estudos e projectos interessantes no campo da didática, infelizmente ainda poucos, mas que dão conta de usos mais correntes da fábula. No entanto, do ponto de vista literário, muito está ainda por fazer. Iniciar um processo que permitisse colmatar esta lacuna foi aquilo que animou a equipa deste projecto a desenvolver o seu trabalho sobre a fábula na literatura portuguesa, e certamente foi a confirmação desta necessidade que levou a FCT conceder o financiamento que viabilizou o seu arranque.
 
[Entrevista cedida por escrito]