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Rui Zink: Plágio consciente

Dóris Graça Dias

Janeiro 2013

E se, de repente, dois desconhecidos lhe instalassem o medo em casa? Lhe refundassem o medo? Não o medo de morrer, do escuro, de perder o ser amado... mas o medo de existir? Aqui e agora, daqui a bocado, amanhã, para o mês que vem... lhe fizessem perder esse ar descontraído de quem tem consciência de que um dia virá, mas que ainda falta muito? O medo do ócio, de não ter emprego, de ser assaltado, de não ter o que comer, com que se vestir, lavar, aquecer. O medo do Banco da Jonet. O medo do garoto que está a estagiar de graça, o medo da gripe, o medo de ter medo.
 
Ele chegou, está aí, e Rui Zink (n. 1961) não quis deixar de o cumprimentar nesta obra em que o absurdo joga com a realidade dos factos que diariamente nos são apresentados. Dá ideia que se perdeu, mas profundas da memória histórico-política do último século, essa vontade de fazer de nós, todos, cidadãos de pleno direito - parece até que já vinha do tempo da Revolução Francesa, ou seria mesmo de antes? O que ainda há dois anos julgávamos possível é sistematicamente arrasado com o discurso do peso do Estado social, da urgência na diminuição de salários, da bancarrota, da incompetência do Estado na gestão empresarial, do termos vivido acima das nossas possibilidades, da dívida, da Dívida, da DÍVIDA. A crise instalou-se, perpétua, incontornável, inevitável, fatal, mortal. Já ninguém quer saber de onde veio, aliás, não veio de lado nenhum: é um fenómeno.
 
A Instalação do Medo (Teodolito) poderia correr o risco de ser um texto que, reagindo em cima do acontecimento, perdesse a sua expressão literária. Através dele se recontrói a «práxis mental» dessas classes dirigentes que, subitamente, protegidas pela legitimidade eleitoral, paralisam os Estados, mortificando-os, empobrecendo-os, criando um complexo de culpa que recai sobre os povos, massa sem rosto, e que pretendem impor um «pensamento único». Portugal - então - assim - de repente. Mas Rui Zink já nos habituou a desmontar o quotidiano político-social usando o truque da máxima «com a verdade me enganas», sendo esse quotidiano nacional o de «o que tem de ser tem muita força», «é preciso cumprir», «é preciso pagar», «não há outra solução», «doa a quem doer».
 
Afirma o autor que a primeira ideia foi a de construir um texto com frases de outros; o resultado final não está muito longe desse «plágio» consciente. Tiroliroliro e Tiroliroló perderam a alegria, e já não tocam concertina nem dançam o sol e dó; a dupla Carlos/Sousa, instala o medo em nossas casas - ou mesmo em nós -, moendo, moendo, contando moralidades perversas, explicando-nos que o dinheiro do Estado é macho e o nosso fêmea. Que sobreviver é a nossa alegria. Que a saúde é um luxo, «de que serve [...], se não houver qualidade de vida?» (p. 107) e a longevidade, coisa supérflua: «- Agora são os velhos. O assunto mais premente. / - As reformas dos velhos. / - As doenças dos velhos. / - A longevidade dos velhos. / - Duram muito, os velhos. / - É desumano, o que duram. / - Um rombo para a economia. / - Improdutivos.» (p. 104). Etc., etc.
 
Assim, Rui Zink, tão doce quanto isto.