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MAPA, o jogo da cartografia.

 Em 2013, após seis anos de intenso trabalho no Porto, decidimos em contexto de Fórum PELEi iniciar uma nova etapa que se viria a concretizar na construção do MAPA, uma tentativa metafórica de evocação à arte da cartografia. Este projecto, que envolveu 130 pessoas, emergiu com base no trabalho desenvolvido e consolidado, pela PELE, e que se reflecte na criação e continuidade de Grupos de Teatro Comunitário (Grupo AGE, Grupo Auroras – Lagarteiro, Grupo de Teatro Comunitário EmComum – Lordelo do Ouro, Grupo de Teatro Comunitário da Vitória – Centro Histórico e Grupo de Teatro de Surdos do Porto). Após a pesquisa e aprofundamento da identidade ligada a cada um dos lugares base de cada um dos grupos, espelhados em diferentes e variados espectáculos, chegava o momento de, pela primeira vez, os cinco grupos provenientes de diferentes zonas da cidade se cruzarem num trabalho conjunto. Este processo permitiu fortalecer a tomada de consciência dos MAPAS de cada lugar e do MAPA da cidade como um todo, perspectivando um MAPA futuro, imaginado e resultado de uma ideia de cidade construída colectivamente e que partiu dos cidadãos reais que a habitam.

O MAPA desenhou-se a partir da metáfora das três fases do processo científico de mapeamento:

1ª fase – “concepção” – o momento da chegada a um lugar, de contacto e reconhecimento – materializado, por exemplo, através de visitas às diferentes comunidades dos cinco grupos organizadas pelos próprios ou do desenho de mapas reais e fantasiados;

2ª fase – “produção” – o momento da apropriação, de fazer de um “lugar qualquer” um “lugar nosso” – dinamização de diferentes conversas em diversas áreas e com diferentes intervenientes, construção da dramaturgia do espectáculo e em particular do texto escrito por Regina Guimarães que consolidou de forma poética as ideias e contributos de todos;

3ª fase – “interpretação” – momento final da construção de um MAPA que se concretizou em ensaios e apresentações várias (TNSJ, Casa da Música e TNDMII).

O MAPA procurou dissipar fronteiras artificiais e tentou reconhecer os outros em nós, precipitou um encontro improvável entre diferentes povoações (zona oriental, ocidental e central), povos de uma mesma cidade, num desenho de um mapa mais próximo dos seus cidadãos. Durante este processo de cartografar, no seu caminho e na sua forma de fazer, houve espaço para questionar o Teatro, a Comunidade e a Participação. O processo foi vivenciado numa “espécie” de contexto seguro onde se conseguiu experimentar outras formas de participar inspirados pela liberdade da criação e vislumbrando outras possibilidades para ser, estar e viver a cidade.

O espectáculo propôs criar, tal como a sinopse explicava, a sensação paralisante provocada por caminhos que parecem ser sempre paralelos e que dificilmente se tocam entre o individual e o colectivo, o local e o universal, o tradicional e o contemporâneo. Foram ensaiados diálogos entre as tribos e a Pólis, o terreno e o sagrado, as narrativas pessoais e as narrativas poéticas e teatrais. O MAPA colocou uma das suas tónicas na necessidade de fuga a uma hierarquia muda e a busca de uma democracia com voz, na escavação contínua rumo às origens das coisas recuperando o encontro da política e do teatro no aqui e agora. O espectáculo, tal como o processo, procurou revelar as tensões dos nossos dias. Inspirados pela Antiga Grécia a proposta centrou-se no “agora”, perspectivando uma “ágora” sem tempo e espaço definidos onde o MAPA ensaiou uma outra cidade.

A construção deste MAPA baseou-se na ideia de teatro e comunidade, “como um campo próprio de acção e pensamento que privilegia a participação num processo de criação artística colectivo inspirado pelas culturas, identidades, histórias, tradições de pessoas e lugares que artisticamente trabalhadas, sustentam o desenho de uma dramaturgia e permite uma projecção alternativa colectiva no futuro. Deste processo artístico e comunitário espera-se qualidade estética e uma vivência colectiva com significado e significativa num confronto construtivo entre o tradicional e o contemporâneo“ [2 p.56].

Este projecto permitiu explorar e consolidar alguns dos aspectos essenciais às práticas artísticas comunitárias: a ligação ao lugar; a relevância da continuidade e autonomia dos grupos; o trabalho com grupos heterogéneos e diversos; uma dramaturgia baseada nas memórias, histórias, identidades, culturas, em suma, nas características específicas que tornam única e irrepetível uma comunidade; enfoque em processos colaborativos de criação colectiva; o envolvimento da comunidade em todas as fases do processo criativo; uma participação voluntária e sem recorrer a selecção; a aceitação de diferentes formas de participação no processo; trabalhar de forma contínua o equilíbrio frágil entre ética, estética e empoderamento [2].

No final do prefácio de Isabel Menezes [3 p.15] que abre o livro, MAPA_o jogo da Cartografia (desenho em palavras), são destacados pontos centrais identificados neste processo como o princípio de que “a transformação social exige um compromisso emocionalmente carregado com aquilo em que acreditamos. É esse compromisso que favorece o despertar da “polis adormecida” e que envolve os cidadãos na mudança da sua cidade. O que este MAPA, finalmente, nos vem mostrar é como o teatro comunitário pode ser um instrumento da conscientização e empoderamento políticos que permite, no texto e no palco, reinventar a democracia”.

Este exercício da cidadania, exigente mas essencial à vida colectiva, foi o fio condutor de todo o processo de construção de MAPA e que Elisabete Sousa participante do projecto resume desta forma: “ o MAPA é dar voz ao cidadão comum, é poder dizer aquilo que se sente na pele. É cidadania”.

 

Nota: Este texto não está escrito ao abrigo do acordo ortográfico.

 

Notas

i Mais informação acerca da PELE, estrutura artística criada em 2007 no Porto, em: www.apele.org

[1] Guimarães, R. (2015) in Hugo Cruz (Coord.) Mapa_o jogo da cartografia (desenho em palavras). Porto: Pele.

[2] Cruz, H. (Coord.) (2015). Arte e Comunidade. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian.

[3] Menezes, I. (2015). Invicto é quem te habita: uma história do renascimento da política e da resistência da cidadania. In Hugo, C. (Coord.), MAPA_o jogo da cartografia (desenho em palavras) (pp. 14-15). Porto: PELE.

Hugo Cruz

Outubro 2015

Dimensão analítica: Cultura e Artes

Título do artigo: MAPA_o jogo da cartografia: teatro, comunidade e participação

Autor: Hugo Cruz

Filiação institucional: PELE, ESMAE-IPP e IELT- Universidade Nova de Lisboa

E-mail: hugoalvescruz@gmail.com

Palavras-chave: teatro, comunidade, participação.

 

“Mas mudaste por dentro.

Ora tu és cidade

Cada um é cidade.

Juntando muitas cidades interiores

Muitas cidades sonhadoras

A cidade que é de todos muda de cores e caminhos.” [1]

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